Ouça a seguir a trilha dos 'siricuticos', 'fricotes', 'frescuras' e 'frasismos' do servo da Rainha do Nilo, 'Crodoaldo Valério', ou 'Crô' para os íntimos. A música faz parte do CD com a Trilha Instrumental de 'Fina Estampa'.Acompanhe:
No ar como Crô, fiel escudeiro de Tereza Cristina (Christiane Torloni) em “Fina estampa”, Marcelo Serrado está surpreso com o sucesso de seu personagem na novela de Aguinaldo Silva. Em entrevista exclusiva ao blog, o ator contou que tem sido abordado nas ruas por telespectadores de todas as idades – de crianças a senhoras – sempre de maneira carinhosa. - Semana passada estava caminhando pelo Centro, na Rua Primeiro de Março, e parei para pegar um caderno que caiu no chão. Quando percebi, todos os passageiros de um ônibus parado no sinal estavam mexendo comigo. Eles gritavam: Crô, Crô, Rainha do Nilo! – conta Marcelo. – Nunca vi isso na primeira semana em que uma novela está no ar. Segundo o ator, os bordões de Crô – que se refere à patroa como “Pitonisa” e “Rainha do Nilo”, entre outras pérolas – também já estão na boca do povo. Marcelo diz que ele e o autor já imaginavam, antes da estreia de "Fina estampa", que o mordomo seria um personagem popular. Mas não pensava que a repercussão seria tanta. - O Crô é cheio de contradições. Apanha daquela mulher (Tereza Cristina) mas, ao mesmo tempo, a idolatra. Na minha opinião, o grande acerto do Aguinaldo foi ter criado um personagem gay que é leve. Ele não levanta bandeiras, é só alegria. Marcelo conta ainda que fez laboratório por um mês e meio antes de começar a gravar, com a ajuda de Kátia Ashkar, psicanalista e preparadora de elenco. Foi a boates gay e assistiu a muitos filmes, como "Milk", estrelado por Sean Penn. Foi dali que tirou inspiração para construir seu personagem.
Perto de estrear na nova novela das 21h da Globo, "Fina Estampa", como Crodoaldo Valério, o Crô, Marcelo Serrado não se limitou para compor o divertido mordomo gay. Seu laboratório para entrar na pele do personagem foi desde um banho de loja até visita a boates gays.
"Um dia entrei na Ellus e levei um monte de roupa. Apareci com um shortinho apertadinho, e todas as calças dele são apertadas. Isso me ajuda a compor", explicou durante a coletiva com o elenco e autores do folhetim.
O ator, que acaba de voltar à Globo depois de uma passagem pela Record, onde viveu alguns vilões, se mostrou muito confortável ao interpretar o primeiro papel homossexual.
"Escolher um ator hétero pra fazer um gay não tem problema nenhum. Personagens assim são únicos, você tem que se jogar. E os vilões que fiz na Record eram engraçados. Acho que por isso me escolheram. Eu ponho humor nesse personagem. Ele tem uma coisa narcisista que é ótima", disse.
Animado, Serrado contou com graça as aventuras que viveu pelo Crô.
"Fui em muitas boates gays para fazer laboratórios, conhecer este universo e construir o personagem. Fui azarado, passei por situações constrangedoras, foi muito divertido! Peguei referências, sempre que saía das festas, anotava expressões, formas de andar, tudo que pudesse me ajudar para o Crô. O Aguinaldo Silva me fez o convite e não tive como recusar. Em 'Fina Estampa', todos os personagens têm lados complexos. O autor vai sempre deixar perguntas no ar, inclusive para o Crô. Será que ele é realmente leve e bonzinho ou seria capaz de fazer maldades?", indaga.
Além de boates, o ator também experimentou cosméticos e parece que ficou mais vaidoso.
"Sempre usei creme e agora colocam laquê no meu cabelo", brinca. "Passo protetor na pele de manhã, faço a barba, à noite também ponho creme no rosto e uso produto no cabelo para deixar mais volumoso", conta.
João Miguel Junior/TV Globo
POLÊMICA
Sobre a polêmica que parte do público levanta sempre quando há um personagem gay em novelas, Serrado garante que seu personagem não levantará nenhuma bandeira.
"Acho que a gente não quer levantar bandeira. Nosso gay é divertido, a gente não quer deixar algo chato para o público. A bandeira já foi levantada. Não acredito que haverá cenas cortadas, até porque as cenas que fiz na cama não mostram o meu namorado. Eu falo para a câmera, para criar o mistério. Há quatro pessoas que podem ser namoradas dele. E essas pessoas são até um pouco homofóbicas, debocham dele, humilham, mas na verdade ele é apaixonado por um dos caras", adianta.
Christiane Torloni, que vai interpretar a chefe de Crô, Tereza Cristina, concorda.
"Cria polêmica quando a intenção do autor é criar polêmica. O Aguinaldo [Silva, autor] quer contar história, quer brincar e esse é o sentido mais antigo da coisa. Tem novela que tem a proposta de criar um fórum de discussão. Acho super bom, justo e útil, mas a nossa proposta não é essa. E isso é perfeito. Você descansa quando o autor fala que não vai levantar bandeira", disse.
"O Marcelo tem tantos instrumentos para trabalhar... Foi até fazer pesquisa de campo! A histórias dele pelas noites gays... Ele dizia que tinha coisa que ele nunca imaginou existir e eu indagava como, com mais de 40 anos, ele nunca pensou naquilo?", brincou.
Para o autor Aguinaldo Silva não há novidade em colocar personagem gay em tramas.
"Sempre vi gays nas novelas, desde a década de 80. Não acho que tenha novidade nisso. O personagem do Marcelo é um cidadão que por acaso tem certas preferências que não interessam muito. O personagem é a pessoa, não é o que ele prefere", disse.